2020: o ano da possibilidade de reflexão e do recomeço 

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Para todas as situações que ocorrem em nossas vidas, independente de serem boas ou ruins, temos minimamente duas possibilidades de caminhos: um, que talvez seja o que naturalmente seguimos, que é focar nas perdas/danos que esta situação pode nos trazer e o segundo, que requer uma maturidade maior, que é ser capaz de identificar as lições com a situação vivenciada. 

O ano de 2020 está sendo inesquecível de maneira extremamente negativa em diversos âmbitos, mas focando na saúde, vivenciamos diversos infortúnios, situações bem inesperadas. Neste momento estão todos pensando na pandemia do COVID-19, tenho certeza. Parece que tudo o que se excetua a esta situação não existiu, ou se existiu, foi em um momento muito longínquo. 

Iniciamos o ano com diversas mortes e desabrigados devido às enchentes no Sudeste. As enchentes ofereceram risco imediato (como os óbitos), mas também riscos futuros, como a transmissão de algumas doenças infecciosas relacionadas à água como leptospirose, dengue e acidentes por animais peçonhentos. Em adição, milhares de pessoas ficaram desabrigadas, o que mostra ser fundamental o cuidado, não somente com o bem-estar físico, mas também no âmbito da saúde mental.

Depois disso, mas ainda no início do ano, e de forma mais localizada (em Belo Horizonte), pessoas se intoxicaram e morreram após a ingestão de cervejas contaminada com dietilenoglicol, substância anticongelante utilizada pela indústria, que quando ingerida provoca principalmente insuficiência renal e problemas neurológicos.

Pouco antes do carnaval, o consumo de água na cidade do Rio de Janeiro se tornou perigoso, devido a possibilidade de contaminação. A princípio foi levantada a presença de geosmina, um composto orgânico produzido pela bactéria Streptomyces coelicolor mas, recentemente, foi conduzido um estudo pelo Laboratório de Microbiologia da UFRJ, que analisou durante três meses a qualidade da água Estação de captação da Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto) e encontrou uma forte presença de esgoto doméstico e também poluição industrial. Tudo isso, e muito mais, aconteceu antes da entrada do COVID-19 no Brasil, mas estava tão distante, que não nos pareceu tão importante.

Em março, se iniciou um processo que até hoje vivenciamos e que sei que não esqueceremos, inclusive é importante que não nos esqueçamos. A entrada do COVID-19 no Brasil e a nossa desarticulação enquanto país, a falta de liderança, que fez com que as instâncias (municípios, estados e União) se desagregassem sem saber, ao certo, qual decisão tomar frente a esta situação, esse é um fato que não devemos esquecer.

O egoísmo da esmagadora minoria economicamente favorecida, que mesmo sendo minoria, impactou na falta de álcool em gel, máscara, medicamentos sem eficácia para COVID-19, mas utilizados em outras doenças, é algo que não devemos esquecer. O uso da máquina pública para autopromoção e ludibriação da parcela da população ignorante e histérica, com medo de morrer devido a esta doença, é algo que não devemos esquecer. A recomendação de medicamentos sem evidência científica e com diversos efeitos adversos, é algo que não devemos esquecer.

Estes últimos exemplos, se referem a ensinamentos que poderemos utilizar futuramente, na escolha dos nossos representantes políticos. Entretanto, temos também a oportunidade de evoluir e agregar ensinamentos a curto prazo. 

Podemos iniciar enfatizando a importância de um serviço público de saúde. Temos uma tendência muito desastrosa em enaltecer aquilo que é externo ao Brasil, principalmente se for diferente. Parte da nossa população enaltece, por exemplo, os Estados Unidos em todos os seus aspectos. Vimos nesta pandemia que não há benefícios em se ter um sistema de saúde privado, pois em meio ao estabelecimento de uma doença de transmissão direta e com alta taxa de reprodução, de nada vale o atendimento somente daqueles que podem pagar. E ainda mais, vimos que mesmo sendo uma superpotência mundial, o atraso no início da adoção das medidas colocou esta superpotência como sendo o país com maior número de casos e óbitos do mundo.  

Vale destacar a experiência da população de Paraisópolis, socialmente vulnerável, que conseguiu manter baixos números de óbitos pela doença quando comparado a outros bairros de São Paulo. A comunidade desenvolveu atividades semelhantes aquelas propostas pela atenção básica. Foram instituídos 420 presidentes de rua, cada um responsável por 50 casas, que acompanhavam a população e ficavam vigilantes ao aparecimento de sinais clínicos e sintomas, repassando informações sobre a doença, seus meios de prevenção e controle, além da distribuição de cestas básicas para aquelas pessoas que viviam em situação ainda mais vulnerável.

Essa experiência exitosa comprova que o trabalho em grupo e a coesão social são extremamente importantes.

Da mesma forma, os programas sociais passaram a ser mais respeitados pois, frente a impossibilidade de trabalhar ou de se reinventar, algumas categorias laborais, outrora não afetadas pela pobreza, passaram a entender que a manutenção dos programas sociais é de fato necessária.   

Ficar em casa também passou a ser fundamental para o exercício da empatia.

E eu digo só ficar em casa já te proporciona a oportunidade de refletir sobre a empatia. Começamos por ter uma casa de alvenaria. Por ter um quarto. Por ter água corrente e sabão. Por ter computador, celular e internet para acesso aos conteúdos, aulas e as famosas “lives” de inúmeros artistas. E nesta hora temos obrigação de pensar naqueles que não tem nenhuma destas regalias. E assumir, não para os outros, mas para nós mesmos, que somos sim privilegiados. E que podemos utilizar este privilégio para ajudar aqueles que não o tem.

Aprendemos também - e isso minha mãe sempre disse – que a nossa vida é uma vela acesa. A qualquer momento ela pode se apagar. A nossa e a dos nossos. Então, que vivamos com eles e também para eles. Que possamos usufruir do que há de mais simples, porque isso é o que de fato importa. Os momentos, as reflexões, as risadas, as inconstâncias, os medos e as alegrias. A partilha. Isso que importa.

Neste momento parece que o universo está nos dando a oportunidade de refletir e recomeçar. De seguir pelo segundo caminho proposto lá no início do texto, aquele que requer mais maturidade. Talvez a maturidade da vivência. Mas para isso, precisamos começar a escolher certo.

Abraço a todos.

Rafaella Albuquerque

Instagram @rafaas28