Torcer pelo chefe da nação

Imagem Fabio Lopez @fabiolopez

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Fui surpreendido esta semana por uma crítica severa ao meu último texto para este blog: “A Guerra Civil Brasileira”. Surpreendido não por ter sido criticado, pois críticas construtivas são o melhor combustível para o crescimento. Mas, pelo fato de, além de discordâncias sobre o que está sendo defendido ultimamente nas manifestações do povo nas ruas, uma das frases do leitor ter sido que “todos devemos torcer pelo chefe da nação, já que ele foi eleito democraticamente”.

Depois de pensar bastante se devia respondê-lo ou não, achei melhor escrever aqui os pensamentos que sua crítica me suscitou.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que nossas discordâncias políticas são tais, que fica claro que ambos partimos de informações bastante diferentes, quando não diametralmente opostas.

O QUE SUSCITA A DISCUSSÃO SOBRE AS INFORMAÇÕES QUE DISPOMOS E QUE EMBASAM NOSSAS OPINIÕES: DE ONDE VEM E COMO SABER SE SÃO PROCEDENTES OU NÃO?

Mas este já seria um outro assunto.

Afinal, independentemente de pensamentos políticos discordantes: o tamanho que o Estado deve ter, quem ganha com a reforma da previdência, quem ganhou com a reforma trabalhista, até que ponto devemos lutar por educação e saúde pública ou privada, ou quais os melhores caminhos para termos mais segurança: se diminuir a desigualdade ou armar a população, torcer pelo atual representante máximo do poder executivo significa concordar com uma série de posturas bastante discutíveis.

Durante o último processo de impeachment, por exemplo, ainda deputado, ele homenageou um dos maiores torturadores do período militar. Num país que abomina a tortura, somente este gesto já deveria servir para cassar sua carreira política. Aliás, a admiração pela tortura e pela ditadura, bem como a opinião sobre a ineficácia da democracia, também são incompatíveis com representantes eleitos democraticamente, seja para qual cargo for.  

Além disso, suas declarações sobre que tipo de mulher merece ser estuprada ou não, ou a maneira com que se refere às pessoas negras, aos povos indígenas, às pessoas trans ou homossexuais, também deveriam ser motivos suficientes para desqualificá-lo para qualquer cargo público, quanto mais o que atualmente ocupa.

Já eleito, durante visita ao atual presidente dos Estados Unidos, cujas posturas também poderiam ser amplamente questionadas, é possível escutá-lo afirmando que não foi eleito para construir, apenas para desconstruir. Além de: “quando a diplomacia não dá muito certo, a retaguarda tem as forças armadas”. Palavras suas, gravadas em vídeo disponível na internet.

Sendo assim, não me parece tão simples afirmar que devemos torcer pelo chefe da nação, independentemente dos valores humanos que ele defende e, ao assumir cargo público, estimula.

As suspeitas de que, se eleito, tais valores passariam a ter mais espaço na sociedade, como o machismo, o racismo e a homofobia, vem se concretizando, como é possível perceber não só nas ruas como nas redes sociais. Posturas até então amplamente condenadas passaram a ser expressas com assustadora naturalidade. O que, infelizmente, revela que grande parte da população brasileira também comunga desses valores.

Por outro lado, já há pesquisas que revelam que muitos brasileiros que o elegeram demonstram sinais de arrependimento. Isso certamente pode ser explicado pela sua conduta nesses 5 meses iniciais de governo.

Mas por que sua agressividade, intolerância, incapacidade para o debate, estímulo ao armamento até de crianças, não foram suficientes para mostrar que ele não era uma boa escolha para o país? Afinal, no primeiro turno não faltavam candidatos para aqueles que estavam insatisfeitos com os últimos governantes.

Por isso me pergunto constantemente o que seduziu tantos eleitores que, com menos de 6 meses de governo, já perceberam sua inadequação ao cargo de presidente da república?

Ah, no final da crítica o leitor ainda afirma que “devemos rezar por dias melhores”. Pois especialmente essa associação de política com religião, num país laico como o nosso, deveria ser imediatamente rejeitada.

Mas, infelizmente, estamos presenciando o contrário em nosso panorama político: cada vez mais a religião está perigosamente se aproximando da política, não só no poder executivo, mas também no legislativo. E, se depender de recente declaração do presidente, também deverá acontecer no judiciário.

Mas este também já é um outro assunto...

Renato Farias

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Dica de leitura complementar ao texto do xará Renato Noguera