O nembutsu não é neutro

Capa: rede de pontos dourados sobre fundo escuro, com o título O nembutsu não é neutro e o subtítulo Carta à Sangha e ao budismo brasileiro que queremos construir.

Carta à Sangha e ao budismo brasileiro que queremos construir

Yoshino Asao

Hoje o Brasil vai às urnas para escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro. Escrevi esta carta na véspera e decidi publicá-la no dia da votação, porque o que ela pede à Sangha não termina com a contagem dos votos. Escrevo como budista da Terra Pura, membro da Sangha da Nambei Honganji, mas não em nome dela nem para ela. Cabe à Nambei Honganji problematizar a própria atuação neste momento histórico. Esta carta é para quem caminha comigo e para o budismo brasileiro que ainda estamos construindo.

Começo pela minha casa, porque foi lá que aprendi o que é o racismo estrutural.

Meu avô, Nobuo Asao, veio de um povo que chegou ao Brasil enganado. A partir de 1908, os japoneses que fugiam da miséria desembarcaram em Santos para ocupar, nas fazendas de café, o lugar deixado pelos negros escravizados. Prometeram prosperidade. Encontraram alojamentos sem estrutura, dívida e doença, e logo perceberam que tinham sido enganados. Muitos morreram.

Depois veio a guerra. O Estado Novo fechou as escolas japonesas, proibiu a língua e calou os jornais. Em julho de 1943, cerca de 6.500 japoneses foram expulsos de Santos em 24 horas. Só em 2024 a Comissão de Anistia aprovou um pedido de desculpas do Estado brasileiro pela perseguição.

E quando a guerra acabou, a colônia se partiu ao meio. A maioria, os kachigumi, não acreditava que o Japão tinha perdido. A Shindō Renmei, uma sociedade secreta com discurso fascista, marcou para morrer quem aceitava a derrota: os makegumi, chamados de "corações sujos". Entre 1946 e 1947, matou 23 imigrantes e feriu 147. Japoneses matando japoneses.

Foi quando li Corações sujos, de Fernando Morais, logo no lançamento do livro, que ouvi do meu avô, com orgulho na voz:

— Somos esclarecidos, Té. Éramos makegumi.

Ainda hoje, aos 50 anos, sigo aprendendo o tamanho dessa frase. Ser makegumi era aceitar a verdade quando a mentira era mais confortável, e pagar o preço por isso. Meu avô também tinha orgulho de ter colocado um lugar no mapa: Pindorama, em Mogi das Cruzes. Mas Pindorama também foi obra da minha avó, Mie Yoshino. Mulher aguerrida, trabalhadora do campo, ela criou filhos e netos com as próprias mãos. Não havia supermercado perto do sítio: tudo ia da terra para a mesa.

Em toda a vida, eu a vi apenas três vezes sem a roupa da lida. Uma foi numa festa do Hōonkō, a cerimônia em memória de Shinran, a mais importante do ano na nossa tradição, em que se retribui com gratidão o ensinamento recebido. Outra foi na missa em intenção do meu irmão, depois da sua morte. A última foi na preparação do caixão dela, que eu acompanhei do começo ao fim.

Só muito depois eu descobri que Pindorama era o nome que os povos originários davam a esta terra antes da colonização. Os imigrantes tratados como estrangeiros deram ao seu chão o nome que o Brasil tentou apagar. Não sei se eles sabiam. Eu sei agora, e isso me obriga.

A família do meu pai foi chamada de "bodinhos", de "japa", tratada como estrangeira no país onde nasceu, sempre sob suspeita, sempre devendo provar que era brasileira. E foi essa mesma família que discriminou com violência a minha mãe, nordestina. Quem foi humilhado aprendeu a humilhar.

Paulo Freire me ajudou a nomear isso. Na Pedagogia do Oprimido, ele mostra que o oprimido carrega o opressor dentro de si: sem consciência da própria situação, o horizonte que ele enxerga é ocupar o lugar de quem o oprimiu. Costuma-se resumir isso numa frase: o sonho do oprimido é ser o opressor. Vi isso na minha família. Vi isso na Shindō Renmei, quando imigrantes humilhados pelo Estado Novo pegaram em armas contra os seus. E vejo isso hoje, quando um descendente de japoneses repete com orgulho que japonês nunca pediu esmola, como se isso o autorizasse a desprezar quem está na calçada.

Shinran tinha um nome para essa condição: bonbu, o ser comum que não consegue se salvar sozinho. Ninguém está fora. Eu também não.

Sou pai da Laura Eiko, catorze planetas em Áries, que eu empodero desde os três anos de idade. Numa sociedade patriarcal e violenta, ser pai de menina é me olhar no espelho todos os dias e desmontar, peça por peça, a toxicidade que a cultura instalou em mim. Sou pai do Jorge Kenzo, menino neurodivergente com trissomia do 21, que me ensina que o tempo de cada um não é atraso. Sou irmão de uma mulher lésbica. Sou irmão de um jovem que morreu aos 18 anos num acidente de carro. O homem que causou o acidente saiu ileso e, na delegacia, diante do nosso pai, pagou aos risos uma fiança de R$ 100. Ali eu aprendi quanto este país cobra pela vida de um jovem. Sou filho de uma nordestina. Sou neto de um makegumi e de uma mulher da terra. É daí que eu escrevo.

Na calçada não existe "eles".

O Prof. Ricardo Mário Gonçalves, missionário da Nambei Honganji e historiador da USP, estudou o culto de Amida no Japão medieval como "um exemplo de consciência histórica no Budismo Japonês". A Terra Pura nasceu lendo a crise do seu tempo, e não fugindo dela. Em 1207, o nembutsu foi proibido, quatro discípulos foram executados, Hōnen e Shinran foram exilados. O nembutsu tirava dos poderosos o monopólio da salvação. Shinran escreveu no Kyōgyōshinshō que o imperador e seus ministros, ao perseguir o ensinamento, se voltaram contra o Dharma e contra a justiça. Nosso fundador não se calou diante do poder.

No Japão, os burakumin são os descendentes das comunidades que o regime Tokugawa fixou na base da sociedade por trabalharem com a morte e o couro: abate, curtume, sepultamento, ofícios tidos como impuros. Não são outra etnia. São japoneses marcados pela ascendência, como numa casta, e a discriminação seguiu depois da abolição legal de 1871 nos registros de família, no casamento e no emprego, até uma lei específica em 2016. Muitos eram fiéis do nembutsu.

E aqui está o que mais me toca na nossa tradição. O nembutsu não incluiu os burakumin, como quem abre a porta de dentro. O voto de Amida começa por eles. Se até a pessoa boa nasce na Terra Pura, quanto mais a pessoa má, diz o Tannishō: o "mau" é a razão de ser do voto. No Yuishinshō-mon'i, ao falar de caçadores e mercadores, Shinran diz que eles somos "nós", que somos como pedras, telhas e cascalho. Ele não olha de cima. Ele se põe entre eles. A instituição inverteu essa ordem, com templos separados e nomes póstumos discriminatórios nas lápides, e foi preciso que o Suiheisha, movimento de libertação buraku cofundado em 1922 por um filho de templo Shin, cobrasse da Honganji a coerência com Shinran.

Nossos burakumin têm cor e endereço. A abolição de 1888 veio sem terra nem reparação, e Abdias Nascimento chamou o que se seguiu de genocídio do negro brasileiro. Em 2024, 77% das vítimas de homicídio no país eram negras. Em 2025, duas em cada três vítimas de feminicídio eram mulheres negras. Com os povos indígenas, o país pratica o etnocídio, que mata a cultura, e o genocídio, que mata o povo; em 2023 a Polícia Federal abriu inquérito para apurar genocídio contra os Yanomami. E o Brasil terminou 2025 com 365.822 pessoas vivendo na rua. Em Florianópolis, são sete a cada mil habitantes.

Todo mês, com um coletivo, eu levo comida, roupa e cobertor para quem dorme nas calçadas de Florianópolis. A rua me ensinou o meu limite: quase sempre fazemos para eles, raramente com eles, e o vínculo se perde a cada remoção. Mas me ensinou também o que Shinran já sabia. Na calçada não existe "eles". Existe o rosto de quem o Tannishō chama de mau e que o voto de Amida chama primeiro.

Por isso acredito que nós, descendentes de japoneses, temos uma responsabilidade particular. Fomos trazidos para substituir os escravizados. Fomos o "perigo amarelo" do Estado Novo. Vimos os nossos virarem algozes dos próprios irmãos. Se a memória dos nossos antepassados vale alguma coisa, ela nos coloca ao lado de quem hoje sofre o genocídio e o etnocídio, e nunca do lado de quem usa a nossa história para humilhar os pobres.

O capital é o motor do saṃsāra.

Ouvi essa frase do Prof. Joaquim Monteiro, que visitou a viúva do Sensei Yasuda Rijin e teve acesso ao seu acervo. Segundo ele, Yasuda a ensinava. Registro como recebi, por transmissão oral. O saṃsāra não é um lugar: é o ciclo que a avidez, a aversão e a ignorância mantêm girando, e uma economia que precisa que o desejo nunca acabe faz da avidez um sistema. Takagi Kenmyō, sacerdote da ordem Ōtani, já via isso no começo do século XX, quando escreveu Meu socialismo. Yasuda também ensinou que a Terra Pura não é outra terra, mas esta terra compreendida corretamente, e que não há nascimento maior na Terra Pura do que estarmos sentados juntos ouvindo o Dharma. Se a Sangha já é a Terra Pura acontecendo, ela não pode ser indiferente à terra onde se senta.

E é sobre essa terra que se vota hoje. Flávio Bolsonaro se apresenta como continuador do projeto do pai, a quem chamou de maior líder político e moral do Brasil. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar a trama golpista. Flávio chama o julgamento de farsa e promete anistiar o pai. Em 2005, deu a Medalha Tiradentes ao miliciano Adriano da Nóbrega, então preso, e na campanha justificou: "Na época não era isso".

Quem herda um projeto herda o que ele diz. E essa linhagem disse muito. Jair Bolsonaro disse de um quilombo que "o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas", e Flávio comemorou com um "VITÓRIA!" quando a Justiça negou a condenação. Chamou os governadores do Nordeste de "paraíba", a palavra que o Sudeste usa para humilhar gente como a minha mãe. Perguntou a um homem de feição asiática "Tudo pequenininho aí?", e em outra ocasião elogiou os japoneses justamente para rebaixar quem pede esmola. Disse a uma deputada que não a estupraria porque ela "não merece", e foi condenado a indenizá-la. Disse que seria "incapaz de amar um filho homossexual", e eu penso na minha irmã. Seu ministro da Educação disse que crianças com deficiência "atrapalham" as outras, e eu penso no Kenzo. Disse que o índio está evoluindo e que cada vez mais é "um ser humano igual a nós", e eu penso em Pindorama.

Eu sei o que o fascismo faz dentro de uma comunidade. Meu avô viu: elege inimigos internos, transforma a dúvida em traição e o ódio em identidade. Chamo de fascismo uma política que faz do pobre, do negro, do indígena, da mulher, da pessoa LGBTQIA+, da pessoa com deficiência e de quem vive na rua os seus inimigos. Diante dela, como budista, não posso ficar neutro.

A nossa tradição já aprendeu isso com sangue. A ordem Ōtani reconhece publicamente que seguiu cegamente a política do governo japonês na Segunda Guerra e empurrou muita gente para o campo de batalha. Takagi Kenmyō, que trabalhou junto aos burakumin e aos pobres, foi preso no Caso de Alta Traição de 1910 e morreu no cárcere, e a ordem só o reabilitou décadas depois.

A Rev. Yvonete Gonçalves, paraibana de Campina Grande, primeira mulher nordestina ordenada na Terra Pura, nos deixou um texto que muitos de nós guardamos. Nele ela escreve: "Se você quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o buddhismo." Para ela, o único triunfo que conta é o de cada um sobre si mesmo, e o budismo não oferece crença cega: ensina a pensar com a própria cabeça. Quem procura no budismo um refúgio para não pensar o país não vai encontrar. Quem procura nele uma arma contra inimigos também não.

O Prof. Joaquim Monteiro, que escreveu no Japão uma Crítica ao budismo imperial, perguntou há anos se estávamos dispostos a "assumir as contradições de nosso incipiente 'Budismo tupiniquim'". Disso, dizia ele, depende nascer aqui uma tradição budista verdadeira ou o ensinamento virar artigo de consumo descartável.

Não peço que se dite voto no altar. Shinran dizia não ter um único discípulo, e ninguém manda na consciência de ninguém. Peço que cada um de nós, monge ou leigo, diga em público que o nembutsu é incompatível com o ódio. Peço que estudemos a nossa história, a guerra, os burakumin, Takagi, a Shindō Renmei, para não repeti-la. E peço que, seja qual for o resultado das urnas, a gente crie um espaço permanente de estudo e prática sobre budismo e justiça social, com a rua dentro dele, e não só como destino da nossa caridade.

A Rede de Indra ensina que nada existe isolado. O imigrante enganado, o escravizado que ele foi trazido para substituir, o povo que deu nome a Pindorama, a mulher nordestina humilhada na própria família, o homem que dorme na calçada: estamos todos na mesma rede. A pergunta é se vamos reproduzir o que nos fizeram ou romper com isso.

Deixo a pergunta para a Sangha: quando a sua família chegou a este país, quem ela foi trazida para substituir, e de que lado você escolhe ficar agora?

Namu Amida Butsu.

 

Yoshino Asao (Dō Sen)

Cartão mostarda do Coletivo Indra com a frase Na calçada não existe “eles”, do texto O nembutsu não é neutro, de Yoshino Asao.

Siga no instagram @coletivo_indra

 

Leituras sobre o tema:

Pedagogia do Oprimido – Paulo Freire (livro)

Corações sujos – Fernando Morais (livro)

O genocídio do negro brasileiro – Abdias Nascimento (livro)

Tannishō: Tratado de lamentações das heresias – Yuien, tradução de Ricardo Mário Gonçalves (livro)

Demythologizing Pure Land Buddhism: Yasuda Rijin and the Shin Buddhist Tradition – Paul B. Watt (livro)

Desfazendo equívocos – Rev. Yvonete S. Gonçalves

Fontes:

A presença feminina na Terra Pura – Revista Mandrágora

Considerações sobre o culto de Amida no Japão medieval – Ricardo Mário Gonçalves, USP

Mensagem sobre o budismo brasileiro – Joaquim Monteiro, Daissen

Yasuda Rijin e a Sangha como Terra Pura – Living Dharma

Declaração sobre a responsabilidade de guerra – Shinshū Ōtani-ha

Imigração japonesa no Brasil – IBGE

Imigração japonesa – Toda Matéria

Expulsão de Santos em 1943 – Discover Nikkei

Comissão de Anistia aprova pedido de desculpas a japoneses – Correio Braziliense

Shindō Renmei e o discurso fascista – UFRRJ

Shindō Renmei, um capítulo sombrio da imigração – Discover Nikkei

Lei japonesa contra a discriminação buraku – La Vie des Idées

Atlas da Violência 2026 – Agência Brasil

Anuário Brasileiro de Segurança Pública – CNN Brasil

Inquérito sobre genocídio Yanomami – Poder360

População em situação de rua – MPSC / OBPopRua-UFMG

População de rua em Florianópolis – Exame

Flávio Bolsonaro confirma candidatura – NBC News

Condenação de Jair Bolsonaro – Bem Paraná

Flávio promete anistia ao pai – RTP

Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega – Metrópoles

Flávio no Jornal Nacional – NSC Total

Quilombolas, Clube Hebraica – Congresso em Foco

Flávio comemora decisão do TRF-2 – Congresso em Foco

"Governadores de paraíba" – Metrópoles

"Tudo pequenininho aí?" – Mais Goiás / Folhapress

Japonesidades e racismo no Brasil – Revista GIS, USP

Frases sobre Maria do Rosário – Congresso em Foco

As frases polêmicas de Jair Bolsonaro – Congresso em Foco

Ministro diz que crianças com deficiência "atrapalham" – Extra Classe

"O índio está evoluindo" – O Popular

Próximo
Próximo

“Pai-Manifesto”