Roedores na Alvorada
Ilustração do Curta Happines (link no fim da coluna)
Está cheio de ratos no Palácio da Alvorada…
…tentaram dedetizar o lugar, mas os jornalistas dizem que os roedores abundam dos bueiros e das localidades no entorno. As mulheres que estavam fazendo a faxina no local gritaram, dizendo aos homens de terno e gravata, sérios e com máscaras na cara, que não iriam mais fazer a limpeza no lugar.
“O chefe de segurança, o superintendente, os ministros da justiça e da saúde, escafederam-se, agora andam televisionando brigas internas e querem deixar os ratos para nós?” — disseram as mulheres, que só estavam ali, coitadas, porque estudaram tanto para ser professoras, muitas até tentaram outras atividades, mas o mercado não estava pagando muito bem na área delas.
Aquele lugar belamente planejado, de moradia do presidente e de tantos homens sérios, está mais sujo do que o chão da rua. Ratazanas enormes foram encontradas comendo queijo. O estranho é que quanto mais comem, os olhos ávidos, mais famintas elas parecem estar: brigam entre si, não querem dividir a comida, não têm empatia, nem por aqueles que são da mesma espécie.
Estudos recentes comprovam que a falta de empatia se dá no momento em que um cai e o outro roedor toma a parte maior do queijo; tendo em vista, — dizem os especialistas — que o poder está em suas mãos, se acham donos do lugar e não respeitam nada e ninguém. Evoluídos, são sorrateiros e, se veem uma ratoeira armada, por algum órgão inteligente do governo, fogem pelas beiradas, se desviam e tentam defender apenas aqueles que são seus filhotes.
A mulher, a única faxineira que está limpando a merda, — pequenas bolinhas que eles vão deixando no chão do enorme palácio, —, tenta não sentir o mau cheiro, jogando água sanitária, esfregando muito, a coitada não vê a hora de ir embora.
Maria, assim ela disse que se chamava, falou aos repórteres, contanto que não revelassem quem ela era, que estava farta de toda patacoada (palavras dela) e que o presidente, os filhos do presidente, os deputados e todos esses homens, que têm o poder através da assinatura deles, parassem de agir como crianças, que o seu filho de onze anos, o João Victor, sabe o perigo de ir ali na esquina comprar o pão para o café da manhã.
Maria clama, dizendo que são tantas as Marias como ela, implora que ajudem a comunidade onde mora. Ela acredita, (palavras dela), em Nossa Senhora da Aparecida, em Jesus Cristo e nos prodígios de Nosso Senhor, mas no momento precisamos de atitudes mais sérias, pois o que anda acontecendo, faz tempo e ultimamente, às vezes até parece filme de ficção científica, mas é a mais pura realidade e os roedores, diz ela, não se importam nem nunca se importaram, com os pobres, que agora estão comendo as sobras dessas ratazanas.
Wesley Barbosa
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